20 de jun. de 2016

Idas e vindas

“Gosto de ver como a vida e o tempo manipulam a nossa vida. Como as coisas que acontecem já estavam predestinadas a acontecer. ”


Por 15 anos ela esteve lá. Sempre no mesmo bairro, indo aos mesmos lugares, uma rotina constante. Escola durante a semana, parque nas férias ou nos fins de semana de calor, igreja aos domingos, casa da vó no natal, posto de gasolina no dia da bicicleta, casa do pão de queijo depois da natação. O shopping abriu depois, acho que ela deveria ter uns 7 ou 8 anos... Lembro do sorriso estampado que ela tinha no rosto a primeira vez que foi até lá, da multidão e da chuva que caiu na volta para casa. Desde então, aquele shopping fez parte do seu cotidiano. Esfirra no Almanara e sobremesa no América, livraria cultura e bem de vez em quando um cinema no meio da tarde.
15 anos, vivendo praticamente nos mesmos lugares, indo na mesma escola, vivendo do seu jeitinho, do jeito que a vida era pra ser.
Ele eu já não sei, costumo estar sempre do lado da garota nas histórias.
Mas acredito que ele também esteve lá por um tempo, que ia no mesmo shopping e quem sabe nos mesmos restaurantes. Acredito que já deve ter ido até a grande padaria de esquina, passado pelos portões da escola que ela estudava e quem sabe frequentado o supermercado que era próximo.  
Por 15 anos, nunca se encontraram. Provavelmente já ficaram no mesmo lugar ao mesmo tempo, provavelmente já se esbarraram no shopping ou já se olharam no meio da rua.
Talvez não. Ela se lembraria de alguém como ele.
Aqueles olhos castanhos profundos, as sardas do rosto e aquele sorriso meio psicopata. Aquela risada contagiante ou aqueles maxilares definidos.... É, provavelmente ela se lembraria de alguém como ele.
E talvez, pela ironia do destino, ele foi parar na sua escola. Ela mudou de sala para ficar com as amigas e lá estava ele. Não conversavam, trocavam gestos de bom dia ou mensagens quaisquer, apenas procurando algum assunto interessante. Em algum momento começaram a se olhar de outro jeito, ele brisava olhando para ela e por mais que ela notasse, e fizesse o mesmo, tentava esconder.
O problema é que ela nunca foi boa em esconder opiniões e sentimentos. Nunca conseguiu ser discreta quando tinha interesse e acho que foi por isso que ele se aproximou.
Em um passeio de escola qualquer ele sentou ao seu lado. Quantas vezes já tinham viajado sem a companhia do outro? Quantos quilômetros percorridos pelo mundo sem nunca se encontrarem? E foi assim que tudo começou.
Outro dia então ele perguntou, no meio de um momento qualquer, com vergonha de soar brega: onde você estava todo esse tempo?
Bem aqui – ela pensou – eu sempre estive aqui. Onde você estava?

A verdade é que a resposta para essa pergunta já não importa mais. Eles estavam juntos, agora, nesse momento. Isso é o que realmente importa. 15 anos ela viveu sem ele, mas por algum motivo ele apareceu agora, e do fundo do coração, ela deseja que ele fique. 

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